• Lúcia Lemos

A história não contada sobre Os Quatro Dragões

Atualizado: Jan 7

A maioria das pessoas que acompanham meu trabalho sabem que meu livro “Os Quatro Dragões” nasceu de um TCC com o mesmo nome, apresentado em maio de 2018. De fato, ele nasceu nesse projeto como livro concluído. Antes, Os Quatro Dragões foi como um ovo abandonado em uma gaveta. E eu achei os registros desse ovo hoje, por acidente, enquanto procurava papel manteiga para proteger as ilustrações em aquarela que estou fazendo para outro livro.


Por volta de 2014, meu segundo ano na faculdade, entrei para uma disciplina de projeto de livro ilustrado com um professor do qual muitos já haviam me alertado que era linha dura. Eu, ainda uma caloura inocente, entrei mesmo assim. Não darei nome aos bois, embora, quem estudou comigo sabe de quem se trata. Nessa disciplina, teríamos menos de um semestre para fazer um livro ilustrado do qual precisaríamos de um texto pronto. Assim sendo, devido a minha paixão por dragões, achei pela internet uma versão da lenda que eu mais gostava, sobre quatro dragões que tentam ajudar uma população sofrendo com seca. Fiz uma pesquisa básica sobre eles e sobre pinturas chinesas para montar na apresentação do projeto, e fiz alguns rascunhos das cenas que eu queria ilustrar em aquarela, técnica que eu não dominava, mas queria aprender.


Foram esses rascunhos que encontrei na minha gaveta hoje. Eles me lembraram do que fui um dos piores dias da minha vida.


No dia da apresentação, o professor da disciplina não apenas me humilhou na frente de todo mundo por conta da minha apresentação amadora e do meu carinho por mitologia asiática, ele me destruiu em todos os aspectos do desenho e quase, quase mesmo, me fez chorar na frente de todo mundo – uma média de trinta cabeças. Minha mãe sempre me ensinou que nunca deveríamos chorar na frente do inimigo, que em casa poderíamos desabar, mas jamais na frente de quem provoca sua dor, e foi o que eu fiz. Meus colegas perceberam que eu não estava bem na saída da aula, porém, aguentei até chegar em casa. E chorei. Chorei horrores, fiquei destruída. O tal professor deixou o curso ao fim dessa disciplina, enquanto que eu fiquei sem desenhar por meses. “Os Quatro Dragões” ficou na gaveta ao lado do primeiro livro da saga Aika. Eu tinha desistido de seguir a carreira de ilustração. Pensava em talvez seguir com design ou até com fotografia.


Aika acabou saindo antes de seu casulo por causa de uma disciplina de quadrinhos no semestre seguinte que, apesar dos torpores, me fez redescobrir meu amor por mangá e por desenhar minhas histórias. Foi no mesmo período em que percebi que, se eu tivesse uma pesquisa sobre temas como mangá muito bem feita, eu podia fazer os professores me aceitarem melhor.


Aika foi escrito e ilustrado de forma independente e foi premiado poucos meses depois de ter entrado na plataforma Wattpad. Já Os Quatro Dragões foi resgatado em uma nova disciplina de ilustração para livros, com uma professora que eu amo de paixão, no final do meu curso. Lá, as ilustrações foram trabalhadas com mais cuidado e tive meus primeiros desafios reais com aquarela. Mas a pesquisa, aquilo que tornou o livro o que ele é e a adaptação da lenda em um texto autoral, só veio com o projeto de conclusão de curso de 2017 a 2018.


Nas fotos, vocês verão os primeiros desenhos que eu tinha apresentado e foram tão desprezados pelo tal professor. Também verão os primeiros testes em aquarela e é muito estranho ver o quanto meu traço mudou em cerca de quatro anos. A última foto compara os primeiros testes do livro, que chamamos de boneca, em miniaturas. Teve até uma boneca de capa dura. Chegamos até a versão que imprimi para apresentar no TCC e, por fim, a última versão de Os Quatro Dragões publicado com a editora Pendragon.






Quero que, quando você, artista, olhar para estas fotos, se lembre dessa história. Grandes projetos são nascem da noite para o dia. Ideias podem precisar de anos de insistência até chegarem ao mundo. Ilustração, técnica, estilo, tudo isso pode levar muito tempo amadurecendo. A mesma arte pode precisar ser refeita mais de uma vez até ficar do jeito que você goste. E mesmo pronta, quando o tempo passar, você vai olhar para trás e vai pensar no que poderia melhorar nela, o que vai se repetir enquanto vivermos. Gosto, contudo, do conceito japonês de ver beleza na imperfeição, de frases como “antes feito do que perfeito”, ideal para ocasiões como as de hoje em que tanto julgamos nosso trabalho e nos esquecemos do indivíduo por trás de sua arte.


E por último, deixo as palavras de Renato Russo:


Nunca deixe que lhe digam que não vale a pena

Acreditar no sonho que se tem

Ou que seus planos nunca vão dar certo

Ou que você nunca vai ser alguém

Tem gente que machuca os outros

Tem gente que não sabe amar

Mas eu sei que um dia a gente aprende

Se você quiser alguém em quem confiar

Confie em si mesmo

Quem acredita sempre alcança!


Rio de Janeiro, 2 de abril de 2019.

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