• Lúcia Lemos

Uma carta para 2029

Segunda, 9 de setembro de 2019.


Livros e quadrinhos são meu refúgio. É para onde vou seja na alegria e ou na tristeza, na saúde ou na doença, na riqueza ou na pobreza, desde que me entendo por gente. Sei que é assim com muitas pessoas, onde eles podem ser desde uma cabana de férias a um porto seguro em dias de medo. Mas nunca, nunca imaginei que viveria o dia em que eu teria que lutar para protegê-los.

Uma lembraça linda da minha primeira Bienal
um dos mangás que meus amigos me deram

As duas primeiras fotos eu bati na noite antes do primeiro dia da Bienal porque eu estava nervosa, com insônia. Seria a primeira bienal que eu iria como autora por uma editora e a primeira em que eu faria cosplay de Aika, a protagonista da saga. Eu queria postar elas na página em 15 de setembro de 2019 para contar uma história fofa aos leitores, mas resolvi postar um pouco antes: Há quase dez anos atrás, mais precisamente em 15 de setembro de 2009, fui a XIV Bienal Internacional do Livro através da Escola Municipal São Paulo. O governo dava aos alunos um vale de cinco reais e eu queria usá-los para comprar meu Mangá favorito, Inu-Yasha. No estande da Comix, eles estavam em promoção e mesmo assim, eu não tinha dinheiro o suficiente para completara coleção a partir do final do anime (volume 72 no Brasil). Então, meus amigos me deram os vales deles e eu quase chorei na fila do estande, porque aquilo foi muito lindo e até anotei nos mangás a data e o nome deles.

Só que, ao invés de ficar feliz ao rever um estande da Comix, fiquei em choque quando vi as imagens dos agentes da prefeitura fiscalizando quadrinhos e livros para censurá-los. Imediatamente lembrei da Lúcia de dez anos atrás, que perambulou pela Bienal sonhando com o dia em que voltaria para lá como autora. Ela sabia que AI-5 só existia nos livros de história para lembrar do que terror que o Brasil viveu por anos e que esse nosso passado de absurdos gloriosos deveria servir apenas como inspiração para grandes vilões em novos livros de ficção. Ela achava que nunca passaria pelo terror que os professores de história lhe contaram. Ela estava enganada.


Meus livros de Aika poderiam passar batido pelos fiscais porque a Lúcia de 2019 não tinha ilustrado a cena em que Aika se revelava bissexual e poucos capítulos depois ficava com uma garota em uma festa no livro 2 da saga. Como o livro é de fantasia e não de romance, priorizei ilustrar outras cenas. Mas meus colegas autores, que tinham feito livros lindos com arco-íris nas capas, ou com romances e fantasias com personagens LGBT+, estes corriam perigo. Uma HQ de heróis com poderes só teve dois beijos entre rapazes (sem qualquer cena de sexo), e o prefeito evangélico transformou aquilo em uma arma, em uma mentira cruel, com desculpa de "proteger crianças". Livros foram lacrados com sacos e levaram selos de "+18" sem ter qualquer pornografia. Isso foi tão bizarro que parece ter saído de um livro de ficção, uma distopia por exemplo. O quadrinho da turma da Mônica Jovem com Cebolinha e Mônica se beijando na capa não levou qualquer censura. Por pura homofobia, a bienal estava sendo censurada. E sorte foi a nossa de que foi com uma HQ famosa, porque se fosse um autor independente ou nacional pouco conhecida, talvez não tivesse feito o escândalo que teve. Também demos sorte de sermos apoiados pela própria Bienal e as Editoras (PenDragon me deu orgulho demais!).


Todavia, neste 2019, a fibromialgia só me permitiu fazer uma plaquinha humilde, mal impressa, com um trecho da oração de São Francisco: "onde houver ódio, que eu leve o amor". No verso, a aquarela que fiz quando Bolsonaro foi eleito presidente, onde escrevi "onde houver armas, que eu leve livros". Levei pendurada na foice no dia 7, pelas horas que pude, porque eu estava com muita, mas muita dor.

Minha humilde manifestação

Até que meu colega da PenDragon Vinicius Fernandes (que foi um dos revisores de Aika) pediu para que eu sentasse perto da mesa de autógrafos dele, para que o cosplay de Aika e a plaquinha atraísse possíveis leitores. Sentei quase tremendo, pondo a foice com a placa virada para fora do estande, e quem se aproximava eu apontava para o livro dele, que tinha logo dois rapazes juntos na capa. Ajudei a ele e aos meus colegas chamando o máximo de atenção que conseguia com aquela foice pesada e a plaquinha, porque eu não sabia quanto tempo eles teriam até aparecer os fiscais cruéis. Para minha tristeza, não aguentei mais por causa da dor e tive que ir embora antes da manifestação acontecer, deixando a placa com o Vinícius para ajudá-lo.


Um dos únicos registros com meu cosplay de Aika e a placa, durante as poucas horas que pude ficar.

Hoje, fiquei feliz ao ler uma reportagem dizendo que aquela manifestação acabou ajudando a divulgar a literatura LGBT+. Admito que chorei quando vi o vídeo onde gritaram o que tinha escrito e me emocionei quando meu amigo disse que a plaquinha o ajudou a vender e esgotar a tiragem de seus livros, a ponto de sua mão doer de tanto autografar! (Você ainda pode encontra-los na loja da Pendragon: https://www.lojapendragon.com.br/loja/busca.php?palavra_busca=vinicius&loja=492765 )


Contudo, estou chorando agora porque há muitas, mas muitas pessoas defendendo o prefeito, defendendo a censura, dizendo que estes autores não tinham o direito sequer de existir. Chamaram a manifestação de baderna, disseram que estragamos a bienal. Decidi postar esta lembrança boa de 2009 mais cedo para sentir alguma esperança, pois tenho medo de que isto evolua para algo pior, que mais histórias e autores corram risco de serem calados, como os que foram décadas atrás. A grande mídia parece estar finalmente ao nosso lado, mas a Lúcia de 2009 que ainda habita em mim está assustada pois, para ela, ela podia escrever qualquer coisa em suas histórias, sem medo. Para ela, ninguém tentaria mais atacar as obras que poderiam ser seu lugar seguro.

Por favor, não deixem que isso continuem! Não podemos ficar calados, não podemos parar de lutar pelo que é nosso por direito: a liberdade de expressão! Não podemos deixar que este ódio louco pela comunidade LGBT+ aumente! Estamos em 2019 e o governo está mais preocupado com um beijo gay do que com nossas escolas ou a infraestrutura de nossa cidade!


Era para a bienal ser um lugar de troca de experiências, de fazer novos amigos, de criar memórias lindas como as de 2009. Eu quero acreditar que, daqui a dez anos, terei apenas a boa memória dos amigos que lutaram e ajudaram a impedir que autores e artistas não fossem censurados nunca mais...

Nunca se esqueçam do poder de um livro.

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